ARGUMENTO

Novo Argumento


01.09.2022




Número 173
Setembro 2022, 36 págs.
Novo formato!

Índice de artigos
︎PRIMEIRAS VEZES EM TERRA DE NUNCA
Pistas para uma cartografia da infância no Cinema Português, no Mínimo Múltiplo Comum de Rita Palma
︎O QUE PODE O PROGRAMADOR?
Annie Bichet, Wulf Sörgel e Richard Peña conversam sobre salas alternativas, os desafios da programação, os múltiplos públicos
︎ AS COISAS BOAS DA VIDA E A VERGONHA DE GOSTAR DELAS Ensaio de Nuno Amado
︎WILL EISNER — O ESÍRITO DA B para a série Cinecomix
︎PÓS-VERDADE E O PSEUDO-DOCUMENTÁRI 
Ensaio de David Cuxart
︎OBSERVATÓRIO
partir d’As Asas do Desejo, por Susana Lemos

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EDITORIAL

1.

O gibão é o primata de aparência mais tosca. Os braços do gibão medem 80 por cento da sua altura. São tão grandes que, quando o gibão está sentado, parecem não fazer parte do seu corpo.

O olhar do gibão é desconcertante. Não apresenta o mistério que encontramos nos gorilas ou nos chimpanzés. Parece estar sempre a pensar onde há-de arrumar os braços e perplexo por não encontrar uma resposta.

A aparência do gibão é tão risível que, se tivesse conta no Tinder®, não teria sucesso absolutamente nenhum. Mas nos cinco segundos que uma miúda levava a rir-se da sua figura ridícula e — ‘nem pensar!’ — deslizar o dedo para a esquerda, o gibão teria trepado sem esforço a uma árvore com mais de 40 metros de altura.

O gibão é o mamífero mais rápido a trepar e saltar entre árvores.
O gibão é ultra-competente a ser um gibão.
O gibão é um mestre.

2.

Os livros de história descrevem os mosteiros como os guardiães da cultura no longo e sombrio medievo. Mas e se os mosteiros foram antes os cemitérios da cultura? Na penumbra húmida dessas cavernas, como podia a cultura sobreviver? É que o vigor da herança cultural não assentava só nas palavras que os escribas copiaram, mas na música que deixaram no esquecimento. Mais ou menos como se, incumbido da função de preservar uma colecção de filmes de uma catástrofe eminente, alguém se limitasse a fotografar as capas dos DVD.

O academismo que criou raízes nesses dias parece bem ser uma espécie de tumor lento da experiência — espalhou pelo mundo longos tentáculos, na esperança de sugar toda a vitalidade da vivência humana, de impor ao caos uma ordem débil, enclausurada e, pior, intelectual. Essa razão tem raízes longínquas. Se procurarem com atenção, no frontispício de todas as universidades está sulcada uma curta sentença em bom velho latim: OLIM MONASTERIUM. O homem ocidental ousou impor essa razão sobre todo o mundo e agora é obrigado a enfrentar os danos da sua ingenuidade.

Uma conjectura que dispensa verificação: a primeira manifestação vital que o homem rigorosamente científico procurou exterminar quando encontrou novos povos foi a dança, depois a música, depois a religião. Logo, as bruxas que arderam no fogo purificador da Igreja deviam ser mulheres muito sensuais.

Tomem as palavras do grande mestre Werner (para quem cinema e vida são noções indistintas),

A academia é a morte do cinema. […] Chumbar a uma cadeira de teoria do cinema é uma medalha de honra.

(Werner Herzog, A Guide for the Perplexed)


3.

O mundo, contudo, continua a apresentar-nos oportunidades de redenção. Parece não haver grande dúvida de que aqueles cenobitas estavam enganados. O George Harrisson, por exemplo, ensina que a música tem total prevalência sobre as palavras,

I look at the floor and I see it needs sweeping


Quando assistimos, por exemplo, a um atleta de alta-competição em acção entrevemos a vanidade da empresa teórica. Quem optaria por assistir a uma palestra sobre Cinética, se a alternativa fosse um jogo do Roger Federer (homem-gibão)?

Face à acção, a teoria revela toda a sua insignificância.

Outra conjectura: tivessem Kant e Hegel ido à praia de vez em quando, e os seus textos começariam a ser compreensíveis. É que o homem rigorosamente racional criou dispositivos mirabolantes para ocultar a sua fragilidade: dentro do ringue com o Mike Tyson não ficaria de pé nem 5 segundos.


4.

Não há sonhos em hd. há quem ainda não se tenha apercebido que a acessibilidade da tecnologia digital não contribuiu em nada para a magia do cinema? Uma experiência: mergulhar na imagem d’A Terra de Dovzhenko e logo de seguida ligar a televisão num noticiário em ultra-definição-4k. Se não quiserem atirar-se de uma janela, terão muita sorte.

Ao contrário do que se possa pensar, a imagem digital é afinal muito exigente. Revela uma espécie de realidade da realidade (profundamente incómoda quando usada sem o devido cuidado). Mas afinal, não está esta nova imagem perfeitamente alinhada com o espírito científico e objectivo do nosso tempo?

Muito se pode aprender com o cinema para o grande público. Se não me engano, esse lugar é hoje liderado pelos filmes de super-heróis. Já pararam para pensar no que está a acontecer nesses filmes? (Não sejam pedantes, um filme de super-heróis pode ser muito relevante. Até o Sr. Scorcese sabe que o Spider-Man do Sam Raimi é um filme sério.) Pois actualmente, (quase) todas as narrativas quebram sem escrúpulos a barreira da ilusão ficcional com elementos meta-narrativos e outros artifícios baratos, perante a estranha indiferença do público.

O mito arrisca ser profanado por fim também no cinema, que pode muito bem ser a sua última barreira. A capacidade de acreditar numa história, profundamente humana, parece estar perto do fim.

Jung relata, numa das suas viagens à América do Sul, o encontro com o líder dos indígenas do Pueblo de  Taos, Ochwiay Biano (Lago da Montanha):

‘Veja,’ disse Ochwiay Biano, ‘como parecem cruéis os brancos. Os lábios deles são finos, os narizes afilados, as caras enrugadas e distorcidas. Os seus olhos têm uma expressão penetrante: estão sempre à procura de algo. De que estão à procura? Os brancos querem sempre alguma coisa; estão sempre apreensivos e agitados. Nós não sabemos o que querem eles. Nós não os compreendemos. Cremos que são malucos.’
Perguntei-lhe por que é que ele julgava que os brancos eram malucos.
‘Eles dizem que pensam com a cabeça,’ respondeu.
‘Mas é claro. Como é que vocês pensam?’ perguntei-lhe, surpreendido.
‘Nós pensamos aqui,’ disse, apontando para o coração
.

(Carl Jung, Memories, Dreams, Reflections)


Felizmente, o cinema já foi o campo de batalha de grandes guerreiros. No Faroeste, com o Monument Valley ao fundo, uma câmara gravou um dia um único momento capaz de defender o cinema contra o mais implacável vazio. A resposta do grande mestre John Ford às perguntas parvas de Peter Bogdanovich:

CUT!




Cinema, Pós-verdade & Bolhas


Foram meses intensos de convocatória aberta, a reunir textos e vídeo-ensaios de Portugal e Espanha: “Cinema, Pós-verdade & Bolhas” foi o mote da call 2021 do ARGUMENTO, realizada em parceria com a Transit: Cine y otros desvíos. Os trabalhos seleccionados começam a ser partilhados no ARGUMENTO #171, e são editados pela revista do Cine Clube de Viseu e nos sites do CCV e da Transit.

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ARQUIVO
Na edição 169 falámos com
Ana Eliseu!


A outra dimensão da conversa com Tommi Musturi (edição 167)...

Na edição 166 falámos com Dartagnan Zavalla!

 


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